28 de abril de 2008

Fétido

Ainda que às portas da liberdade, permanecia atado a pesadas correntes. Preso às docas, acorrentado ao cais, exalando cheiro de peixe e excremento de aves, o jovem mal conseguia abrir os olhos. A claridade do sol refletindo sobre o oceano verde azulado perfurava-lhe os olhos como lâminas afiadas. Sentia náuseas ao ouvir os sons da liberdade e sentir a imensidão do horizonte. Os anjos que o receberam transfiguravam-se diante de sua mente confusa. Eram inimigos. Gente nefasta dedicada tão somente a livrar-lhe daquilo que lhe era mais sagrado - tristeza, solidão e miséria.

Passou seis dias agarrado ao cais, com as costas voltadas para o oceano, pragejando contra o sol, o mar, o vento e os anjos, alimentando-se de guano, clamando pelo dia em que poderia voltar ao sepulcro fétido que lhe abrigou nos últimos anos.

No sexto dia, libertou-se. Diluiu-se e escoou pelo bueiro. Abandonou o cais sem ter experimentado o mar. Deixou os anjos, desaparecendo da vista de todos. Esvaiu pelos esgotos jubiloso, vitorioso, a caminho da morte.



Antes desse:
2. Fétido

5 comentários:

  1. Rubinho, tirou as palavras da minha boca...

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  2. dia 01 de maio,
    tá lá um morto estendido no chão...
    e um silencio servindo de amém...
    olhei para o corpo no chão e fechei minha janela de frente para o crime...

    dá-me mais amor Senhor!!!

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  3. Desgraçado, como o de Castro Alves, em Navio Negreiro: "Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me vós, Senhor Deus!
    Se é loucura... se é verdade
    Tanto horror perante os céus?".

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  4. Desgraçado, como o de Castro Alves, em Navio Negreiro: "Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me vós, Senhor Deus!
    Se é loucura... se é verdade
    Tanto horror perante os céus?".

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