6 de novembro de 2013

A verdade é seda esvoaçante




“A verdade, com suas vestes, acha 
que os fatos são apertados demais. 
Na ficção ela se move mais à vontade”.
Rabindranath Tagore



O que não me canso de dizer, desde o antigo 'reticências', e que o Paulo Brabo disse muito melhor que eu no belíssimo 'a verdade e sua metáfora', está aí resumido pelo indiano Nobel de literatura Radindranath Tagore.

Enquanto as teologias de linha fundamentalista/literalista tentam fazer caber a verdade nas vestes apertadas dos fatos, enquanto se desdobram para emendar todas as pontas soltas, a verdade insiste em vestir-se de narrativas, de metáforas, de parábolas. A verdade é tecido leve de seda e cetim dançando ao vento. Não é possível saber sua forma exata, seu corte preciso, porque não pára, porque dança, porque serpenteia e esvoaça com a mais leve brisa.

As vestes sisudas, abotoadas e engomadas dos fatos só podem conter uma caricatura da verdade. Uma imagem limitada e desconfortável.

Não é à toa que a verdade, depois de ter passado séculos e séculos tentando conformar-se ao papel, teve que encarnar na mais esvoaçante de todas as formas - a de um ser humano. Nem é à toa que seus movimentos foram sempre inesperados, que caminhou errante, que deixou-se levar pelo vento por caminhos inesperados. Não é à toa que não se pôde controlá-la. Nem é à toa que era encantadora e cativante e por onde passava deixava queixos caídos.

Tivesse se vestido de fatos e passado a defendê-los com unhas e dentes em cruzadas apologéticas em favor da família e dos bons costumes, teria gerado um levante de ódio contra o outro e deixado rastro de sangue que não seria o dela, mas das multidões digladiando-se na busca atordoada pela afirmação definitiva da verdade.

Mas assumiu forma mais sutil e desarmou e deixou o odor da vida por onde passou. A não ser entre aqueles que não suportavam suas palavras vagas sobre amor e bondade. A não ser entre os que queriam, a todo custo, a verdade redigida em documento e lavrada em cartório para tê-la sempre em mãos, prontos para julgar e condenar quem não a seguisse à risca.

Não é à toa que ela escondeu-se no peito de um homem.
Não é à toa que esse homem a manteve dentro de si.



“Deixo as minhas pequenas coisas para as pessoas que amei.
As grandes são para todos”.
Rabindranath Tagore


Em tempo: descobri Tagore num post do interessantíssimo blog de literatura HomoLiteratus, do  Vilto Reis.

5 comentários:

  1. Anônimo9:33 AM

    Bom dia Tuco,

    hoje minha sensibilidade, um tanto descomovida pelas friezas da vida que por vezes nos abate, foi reconduzida ao seu lugar de sempre através seu texto esplêndido.
    "Seda esvoaçante" são suas palavras provindas de um entendimento sublime, de um eu lírico majestoso e um coração pesado de amor.

    Tagore é magnífico.
    E vc não fica nada a lhe dever em inspiração.
    No meu ver o que define os grandes escritores é a inspiração. Falar de coisas que não nos são comum e que não estamos atentos e que nos chegam de forma impactante. Num ritmo alucinante.
    Os formatos de elaboração, o ritmo e a arquitetura das palavras, a notariedade que lhes é conferida e a definitiva entrega as suas vocações, são elementos também que os distingue um dos outros.

    Seu "Igreja entre Aspas" é visceral. E o Capítulo 8 - Desapego - me pegou de cheio ampliando e acariciando meu olhar sobre Divindade.
    Está comigo aqui no escritório. Minhas leituras comoventes e discernentes sempre ficam perto de mim.

    Um grande abraço e obrigada por me fazer tanto bem, assim de longe e tão perto.

    Que o Senhor Deus continue a perfumar seus dias com sua doce, surpreendente e tão abrangente presença e também dos amados do seu coração.
    denise senra

    nota: enquanto lia seu texto através do meu Feedly no celular, ouvia essa canção que amo e deixo aqui para perfumar seu dia.

    http://youtu.be/sgcSKOycV34

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    1. Obrigado Denise. Muito bonita a música.
      Abraço.

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  2. Tuco, o anônimo disse tudo... eu só assino embaixo. Bj

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  3. Sempre bom ler e reler os frutos de sua pena.
    Não obstante chego a duvidar de que a Verdade em toda sua leveza e cavalheirismo também não ousou a contemplar os mais obtusos em sua demanda pela crueza dos fatos e etc...
    Por isso temo que a tragédia reside com aqueles que não se contentam de forma alguma com a Verdade, nem de um jeito nem do outro.

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