5 de abril de 2017

No horror do ruído constante

A praça de alimentação de um shopping center já foi a mais perfeita alegoria da ruidosa realidade desse nosso tempo. Mas nós somos hábeis em aperfeiçoar a tragédia.

O assombro de uma praça de alimentação, evidentemente, jamais residiu no alarido barulhoso e constante daquele ambiente hostil. Como de costume, a verdade não se apresenta nas aparências mais vistosas. O assombro esconde-se na visão plantada na mente de Simond e Garfunkel, 50 anos atrás. Dez mil pessoas, talvez mais, reunidas, mas falando sem dizer, ouvindo sem escutar, escrevendo canções que vozes jamais compartilharam. E ninguém ousava perturbar o som do silêncio.

Pois a encarnação vertiginosa da canção encontrou espaço perfeito nos ambientes virtuais e seus dispositivos móveis. Como em um passe de mágica conseguimos, em um mesmo ambiente e instante, ampliar simultaneamente o ruído e o silêncio. A humanidade todinha reunida, falando sem dizer, ouvindo sem escutar.

Há uma gritaria desconcertante no planeta, e é no horror desse ruído constante que habita o mais canceroso silêncio.




The Sound of Silence: letra e tradução

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